Banzai nos jornais, revistas, na TV e etc...

ENTREVISTA COM LÚCIO

Tatuagem - Corporalidade e Arte

Fonte: GÉH - Edição 78 por Alexei Gonçalves

Lúcio TattooAlexei: Vamos começar pelos aspectos mais gerais da tatuagem como forma de arte e os tipos de tatuagem que você aplica.
Lúcio: A tatuagem se aproxima mais daarte gráfica e da ilustração do que da arte conceitual. Os estilos de tatuagem, como na ilustração, variam muito, desde de o estilo de traço grosso, até o estilo de trabalho sem traço, realista, fotográfico... Hoje em dia, as técnicas de tatuagemabrangem um leque muito grande de opções de desenho. A tatuagem não se prende a apenas um estilo. Na minha equipe, eu sempre procuro ter um profissional qualificado para cada tipo de trabalho, desde o estilo oriental, mais ligado à história da tatuagem, até as samoas, as tribais, as realistas, as que envolvem reproduções de fotos ou pinturas. Tudo vai depender de alguns fatores como a cor da pele, que influencia diretamente o trabalho do artista.

Alexei: Você pode explicar melhor esse lado individual da tatuagem, por exemplo, a influência da cor da pele sobre o resultado da tatuagem, já que estamos tratando da pele como suporte para a arte?
Lúcio: A tatuagem hoje em dia é uma arte individualizada, voltada para o cliente e isso já na escolha do desenho. Nem sempre a gente vai desenhar a partir de uma imagem já existente mas também há todo um lado de criação nesse trabalho. Na questão da cor da pele, a gente procura orientar o cliente pois, quando falamos em tatuagem, é preciso pensar em como ela se processa no corpo humano. A tatuagem se localiza entre a epiderme e a derme, na bolsa basal. É como se a epiderme formasse uma "película" sobre a tatuagem, assim, quanto maior a densidade demelanócitos na epiderme, maior a dificuldade de utilizar certas cores. Quando a pessoa voltar a produzir melanina, expondo-se ao sol, a coloração da pele vai cobrir a tatuagem. Uma pessoa de pele muito morena não deve fazer uma tatuagem muito colorida porque ela vai perder muito tempo e dinheiro fazendo um desenho que não vai se destacar tanto quanto ela deseja, por mais bem feito que tenha sido o trabalho. Por outro lado, a tatuagem em preto e branco é muito versátil, pode-se reproduzir todas as nuances da escala de cinzas e é possível obter resultados tão bonitos quanto na tatuagem colorida.

Alexei: E quanto à pele negra?
Lúcio: Pelos motivos que já falei, é muito difícil pigmentar a pele negra, com qualquer que seja a cor. Quanto mais a pele do cliente tender para o negro, mais difícil será a aplicação de qualquer cor, embora, repito, seja possível fazer uma tatuagem muito bonita em preto e branco sobre a pele morena.

Alexei: A tatuagem é uma alteração permanente na pele, mas ela sofre desgaste com o passar dos anos? Tende a perder a cor, por exemplo? Como se processam essas alterações?
Lúcio: A tatuagem funciona através da inserção de grânulos de pigmentos na bolsa basal. Esses pigmentos não são atacados pelos nossos macrófagosporque não provocam rejeição. Se você mora em uma região fria onde você dificilmente vai ser exposto ao sol, ressecamento e umidade, a tatuagem vai ter uma durabilidade muito maior. Agora, num país tropical como o nosso, onde a pessoa é submetida a temperaturas e a índices de umidade extremos, o ressecamento da pele é muito maior e isso provoca desgaste no desenho. Isso exige que a tatuagem seja renovada, dependendo do organismo de cada um, a cada quatro ou cinco anos. Outro caso é o da pessoa que faz a tatuagem e ganha peso corporal, seja massa muscular ou gordura. Quando há ganho de massa, a pele se "estica" o que facilita a absorção e eliminação do pigmento. Observe que esse problema só acontece quando há ganho de massa corpórea. O emagrecimento não afeta a tatuagem.
Mas há diferenças individuais. Os pigmentos da tatuagem são de base orgânica com uma pequena base mineralpara fixar o pigmento e evitar sua absorção pelo organismo. Mas há pessoas cuja pele absorve até mesmo essa base mineral. A questão do desgaste da tatuagem varia muito para cada caso individual. Há pessoas que aplicam uma tatuagem marrom e, após alguns anos, a cor marrom desaparece totalmente, porque o pigmento foi absorvido pelo organismo. Já com outras pessoas, esse mesmo processo não ocorre com o marrom, mas com o amarelo ou o laranja.

Alexei: Essas alterações de massa corpórea podem provocar distorções nas formas desenho?
Lúcio: É muito difícil. Depende do local. Por exemplo, nas costas, é muito difícil ocorrerem distorções. Já nos braços, pode ocorrer, com o ganho de massa muscular, um "deslocamento" do desenho, o que pode exigir desde uma correção no desenho ou até sua cobertura total.

Alexei: Em todo caso, a tatuagem é algo que a pessoa vai carregar na pele durante muitos anos, expressando um significado profundo. Assim, essa decisão não pode ser impulsiva.
Lúcio: Certamente. A tatuagem é usada para marcar fatos tanto biológicos quanto sociais da vida do ser humano, é um tipo delinguagem. Assim, não sou favorável à banalização da tatuagem. O indivíduo deve se preocupar, principalmente, com a escolha do temae, em seguida, em fazer uma pesquisa quanto ao profissional mais qualificado para produzir o efeito desejado, deixando o cliente 100% satisfeito. Outra questão é que a tatuagem, por não ser reversível, precisa ser muito bem administrada. Por isso, vale a pena dar um toque aos seus leitores: escolha o tatuador pela qualidade do profissional, não pelo preço.

Alexei: Sobre qualificação profissional, você pode citar alguns riscos envolvidos em uma escolha da tatuagem pelo preço?
Lúcio: Os riscos são muitos. Para começar, a tatuagem não tem origem nacional, muito pelo contrário, surgiu no Brasil na década de 1970, há pouco mais de trinta anos. Assim, é uma profissão relativamente nova. Com o boom da tatuagem a partir da década de 1990, surgiram "profissionais" por todos os lados para atender à demanda. Veja, não é uma categoria profissional regulamentada e não há sequer cursos de nível técnico ou superior para sua formação. Porque, além da técnica propriamente dita, a formação educacional propicia uma base ética para o comportamento no trabalho. Você precisa escolher o profissional, então, com base em trabalhos que ele já tenha realizado e na infra-estrutura do local da aplicação, algo que você nota só pela observação.
Porque, veja só, a tatuagem tem uma ligação com o sangue. Então, apesar de ela ter um campo de contaminação muito pequeno, existe um risco se não houver um cuidado no uso dos materiais. Aí, entram as bactérias de contato, os vírus das hepatites B e C. É muito difícil a contaminação por AIDS, só poderia ocorrer pelo contato direto com o sangue de um tatuador infectado, mas há uma série de outras doenças infecciosas sérias que podem ser resultado de descaso no processo de tatuagem.
Quanto aos danos que uma tatuagem mal-feita pode trazer à pele propriamente dita. Por exemplo, um tatuador pouco experiente pode manusear a agulha desajeitamente, de um modo que ultrapasse a bolsa basal. O que pode acontecer nesse caso? No mínimo, a tinta pode se espalhar sob tecido, dando um aspecto grosseiro ao desenho, modificando a cor. Outros danos incluem cicatrizes na derme, que causam escurecimento da pele, quelóides e outros danos que enfatizam a necessidade de se procurar um bom estabelecimento para realizá-la.

Alexei: A tatuagem, como você enfatizou, é um procedimento irreversível. O que motiva uma pessoa a provocar uma alteração permanente na imagem do corpo?
Lúcio: A tatuagem está inserida na vida humana desde a idade da pedra. É um procedimento que, eu diria,transcende a moda e os conceitos da sociedade, é uma tendência humana universal. Por exemplo, o cristianismo, em diferentes épocas de sua história, tanto rejeitaram como adotaram a tatuagem. Por exemplo, durante as Cruzadas, a tatuagem era utilizada como meio de identificação. Já durante a Inquisição, ela foi condenada. Charles Darwin, em 1871, quando ela já estava concluindo "A Origem das Espécies", ele verificou que todas as civilizações que viviam em ilhas costeiras, usavam tatuagem com diferentes formas de expressão e design. Quer dizer, eram povos que não tinham contato uns com os outros, mas todos eles expressavam mensagens através da tatuagem. Ele constatou que entre os maoris e os povos da ilhas do Taiti a tatuagem existia, embora com motivos totalmente diferentes. Isso representa a constatação de uma tendência humana, como o uso de jóias, por exemplo. Com a diferença de que a tatuagem é mais profunda, porque, como já disse, ela serve para marcar fatos tanto biológicos quanto sociais.
Por exemplo, às vezes o sujeito quer marcar um amor que ele vive e marca o nome da mulher na própria pele. Também é comum marcar o nome de um filho, ou o nome da família. Outra motivação é expressar algum ícone que represente sua vida interior, como a tatuagem de um guerreiro, ou de um animal.
Por esse motivo é que afirmei que a tatuagem transcende os conceitos da moda. Às vezes, a moda interfere, mas de forma circunstancial, como no caso de uma modelo que apareça numa foto usando uma tatuagem com um desenho específico. Aí, surge uma demanda passageira por aquele desenho.

Alexei: Já que a tatuagem é um fato humano universal, que motivos você identifica para as flutuações em termos de sua resistência e aceitação ao longo de diferentes períodos históricos?
Lúcio: Por exemplo, na China, uma civilização milenar em que a prática da tatuagem surgiu e se desenvolveu há séculos, ela assumia um caráter de vestuário. Por exemplo, um sujeito que não tinha recursos para usar roupas sofisticadas como as dos imperadores pintava o corpo de forma a ficar parecido com as vestimentas imperiais. No Brasil, por outro lado, ela chegou muito recentemente, na década de 1970, pelas mãos de um sujeito que é considerado o pai da tatuagem no Brasil, o Luke, que se baseou no porto de Santos e disseminou a tatuagem pelo pessoal que habitava a zona portuária: marinheiros, prostitutas, ladrões... Então, a tatuagem recebeu aqui o estigma de símbolo de marginalidade, porque ela chegou marginal ao Brasil.
Por volta de 1975, ela chegou à praia de Ipanema através de um garotão, um surfista que era um verdadeiro "ícone", chamado de "Petit". Ele foi ao porto de Santos e trouxe de lá uma tatuagem, que mereceu até uma música do Caetano Veloso: um "dragão tatuado no braço". Através desse ato, a tatuagem caiu no centro da cultura carioca de então, o píer de Ipanema, onde se concentravam os hippies, o pessoal da tropicália. Ele trouxe a tatuagem, portanto, para o coração de uma juventude revolucionária, que queria modificar a o sistema social. A tatuagem continuou com imagem marginal, mas já com uma ideologia diferente.
O final da década de 1980, com a globalização, representou o boom da tatuagem no Brasil, com aceitação social total da tatuagem. O lado ruim é que qualquer um pôde se dizer tatuador e, pior, se achar tatuador.

Alexei: Sobre o aspecto artístico da tatuagem. Você é designer gráfico e tatuador. Certamente pode estabelecer diferenças entre a criação artística no papel e na pele.
Lúcio: O tatuador, atualmente, tem uma preocupação sobre como a tatuagem vai se apresentar sobre o corpo da pessoa. E isso só se aprende através de observação, principalmente do trabalho de outros artistas de outras áreas. A tatuagem não tem apenas o aspecto do desenho em si, ela tem que ficar tão harmoniosa no corpo como uma roupa. E esse efeito vai ser mais bem atingido pelo tatuador mais experiente. Embora ainda haja muitos adeptos ao lado romântico da tatuagem, o que chamo de "old school", o fato é que ela se desenvolveu muito tecnicamente e expandiu seus horizontes, de modo que há espaço para adaptações contemporâneas de técnicas e desenhos tradicionais, como o estilo oriental e o samoa. Quero enfatizar que não adianta um cara pegar um papel e desenhar muito bem, ser um artista de mão-cheia, se ele não tiver experiência e conhecimento sobre como ele vai reproduzir aquele desenho em uma tatuagem, porque ele terá de usar recursos totalmente diferentes para obter um resultado idêntico.

Alexei: E com relação à "mídia" propriamente dita? O papel é uma superfície lisa, enquanto a pele é uma superfície irregular...
Lúcio: A própria pele apresenta diferenças imensas de um indivíduo para o outro. Por isso o tatuador precisa estar sempre tendo experiências novas, tem que ter a mente muito flexível e com uma visão muito aberta, senão ele não vai conseguir esses detalhes da profissão.

Alexei: Quanto aos elementos do trabalho gráfico em geral, como posicionamento, harmonia, composição...
Lúcio: Tudo isso é importante e levado em consideração durante o trabalho. Por exemplo, o tatuador precisa explicar para o cliente, por exemplo, que uma tatuagem muito pequena em uma região muito baixa do corpo vai ficar parecendo um sinal, uma mancha na pele. O tatuador tem que trabalhar para que o cliente siga a sua linha de raciocínio na execução do trabalho, senão o trabalho fica impossível.

Alexei: Com relação aos projetos de longo prazo, em que uma pessoa começa com um desenho pequeno e vai acrescentando outros...
Lúcio: São muitos os casos. Hoje em dia, posso citar casos de pessoas que chegam sem nenhuma tatuagem no corpo e fecham um serviço para as costas inteiras como primeira tatuagem. Isso é um sinal de que a tatuagem já está socialmente amadurecida entre nós. Já quanto à posição do desenho, quando se trata de uma tatuagem pequena, é um problema relativamente simples. Acho que o tatuador tem por obrigação posicionar o desenho de uma maneira que o indivíduo se sinta bem, à vontade, seguro quanto ao que vai fazer. É o mínimo que um tatuador tem que saber fazer.

Alexei: Agora, invertendo as posições, gostaria que você falasse da experiência de ser tatuado, dessa decisão de atravessar um processo de dor para atingir o Belo.
Lúcio: Nesse sentido a tatuagem é mágica. O ser humano consegue superar a dor da tatuagem com a maior facilidade devido à intensidade de seu desejo de tê-la no corpo. O processo chega até a ser viciante. Há alguns casos em que o tatuado revela uma tendência compulsiva em se tatuar. Começa com um trabalho pequeno, logo em seguida faz outro, quando você vê, o cara já está todo tatuado, e muito rápido. A magia da tatuagem é muito forte. O sujeito que entra pela primeira vez para fazer uma tatuagem e resolve fazer um trabalho grande, ele em um mundo totalmente novo e encantado para ele. É por aí que a Beleza supera a dor.

Alexei: E o caso inverso, do "tatuado arrependido"?
Lúcio: Esses casos existem também. O "arrependido" pode ser qualificado como o sujeito que teve uma primeira experiência ruim com a tatuagem. Vou dar alguns exemplos. O primeiro caso é o do sujeito que faz uma tatuagem muito jovem e escolhe um tema que não condiz mais com sua personalidade após alguns anos. Outro caso é o de um desenho que resulta muito ruim, criando um "trauma" na pessoa. Ainda outro caso é o do tatuador inexperiente que produz um processo de dor muito intensa, também criando um trauma. Mas eu acho que esses casos só existem devido à má administração do trabalho em termos gerais. Quando a tatuagem é bem administrada, mesmo que o cliente faça apenas uma tatuagem pequena, ele vai deixar a mente aberta para realizar outras tatuagens futuramente.

Alexei: Quanto às tatuagens não permanentes, de curta-duração...
Lúcio: Isso não existe, é mentira. Só a henna, mas a henna não é uma tatuagem. A própria palavra "tatoo" surge a partir do som do contato da agulha com a pele. A partir daí, você entende que só pode existir tatuagem em contato com a carne, em local onde ela se fixe. O que pode ser entendido como pertencente ao campo da tatuagem, embora não sejam a mesma coisa? A escarificação, o "brand", o processo de tatuagem maori, que é feito com pequenos cortes causando quelóides... Tudo isso pode ser entendido como análogo à tatuagem, mas não consigo aceitar a henna como processo de tatuagem.

Alexei: Para você, então, a henna é uma forma de pintura corporal mais duradoura...
Lúcio: Sem dúvida, é uma pintura corporal que dura uma semana, dez dias no máximo. Não pode ser qualificada como tatuagem, porque a tatuagem tem uma relação direta com a dor física.

Alexei: Finalmente, é possível remover ou apagar uma tatuagem?
Lúcio: A tatuagem só pode ser removida com laser. Antigamente, usava-se o laser de rubi, mas descobriu-se que o laser rubi era anulado pelos pigmentos que refletiam os raios de cor vermelha. O vermelho não era apagado e os pigmentos com matizes de vermelha eram muito resistentes à remoção. Atualmente, usa-se mais o laser de âmbarporque, embora machuque mais, ele é mais eficaz. Agora, é um processo tão doloroso quanto caro, muito mais doloroso e caro do que fazer a tatuagem. No caso da tatuagem não-permanente, houve um caso de algumas pessoas que divulgaram um tipo de tatuagem que sairia sozinha em quatro anos. Essa promessa é infundada e mentirosa, já foi provado que não existe esse tipo de tatuagem.